FILME: DO COMEÇO AO FIM

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Os produtores do filme Do Começo Ao Fim ainda estavam procurando patrocinadores para o longa quando um vídeo supostamente vazou no Youtube. O cenário estava montado: o trailer mostra dois irmãos, ainda crianças que se tornam adultos bonitos e envoltos numa paixão avassaladora. Soma-se a isso a música Summer 78 (da trilha sonora de Adeus, Lenin! composta por Yann Tiersen). Em pouco tempo, o vídeo foi acessado milhares de vezes, a notícia espalhou e como num viral perfeito o filme se tornou um sucesso antes mesmo de ter data de estréia.

Tal repercussão se deve ao ineditismo do tema no cinema brasileiro: dois irmãos por parte de mãe, crescem com uma ligação muito íntima e ao tornarem-se adultos, passam a viver como um casal. Um tema polêmico. Mas o filme foi acusado de plágio, e a obra original seria o curta metragem americano Starcrossed e, de fato, há semelhanças na trama. O diretor Aluízio Abranches (Um Copo de Cólera), afirma ter iniciado o projeto um ano antes do lançamento do curta e nem sequer tinha conhecimento sobre ele.

Na última quarta-feira, 04 de Novembro, foi realizada em São Paulo uma pré estréia para imprensa, blogueiros e usuários de redes sociais. Estive lá e resolvi publicar a primeira resenha sobre um filme aqui no blog. A estréia vai ser dia 27/11.

POR QUE O FILME ESTÁ CAUSANDO UMA "POLÊMICA DO BEM"?

Incesto e homossexualidade são temas que, por si só costumam causar polêmica quando levados ao cinema, televisão ou qualquer veículo direcionado a grandes públicos. Neste caso o filme tem as duas coisas e além disso, é uma relação que se inicia ainda na infância e se consuma na vida adulta. Mas o diretor (que também assina o roteiro e faz uma pequena participação) na verdade, estava interessado em contar uma história de amor. E faz isso com total respeito e delicadeza. Não há uma só polêmica gratuita, nem apelo vulgar. É uma história genuína de amor que ultrapassava convenções sociais e morais. É apenas uma história de amor. E é por isso que a polêmica do bem se espalhou pela rede deixando um séquito de fãs prematuros ansiosos pela estréia.

É UM FILME GAY?

Temos como costume classificar como gay, tudo aquilo que envolve pessoas do mesmo sexo. Um romance entre homem e mulher, diferente disso, não é classificado como filme hetero. À primeira vista, o filme pode parecer direcionado ao público homossexual. E este público realmente abraçou a causa e, talvez, sejam os que mais aguardam o longa. O fato dos dois atores da fase adulta (João Gabriel Vasconcelos e Rafael Cardoso) serem (muito) bonitos desperta a atenção, é impossível ficar indiferente a isso. E é como se fosse uma isca ao espectador. Mas além disso, o filme tem outro trunfo.

PORQUE ASSISTIR

O filme é acima de tudo a história de amor que todos querem vivenciar. Um amor arrebatador e recíproco. E o fato de serem irmãos, só causa algum desconforto quando são crianças. E nesta fase infantil, tudo o que acontece entre eles é uma intimidade inocente, mas que acenava para algo maior no futuro.

Estamos acostumados a ver romances e comédias românticas; dramas. É comum nos depararmos com histórias de amor no cinema, na TV, livros, etc. Mas neste filme tem algo diferente: existe um amor incondicional que é plenamente vivido sem tragédias. E isto é algo raro entre casais e só temos notícia dessa entrega em relações maternais. E nesse ponto, as relações entre Thomás e Francisco ganham patamares mais amplos. Um é como pai para o outro. E são amantes. E são irmãos. O que torna o envolvimento mais complexo.

Na vida real, certamente não seria tão simples. A família, os amigos, a religião, e os próprios irmãos teriam conflitos e problemas estratosféricos. Mas os personagens, seja a mãe, o pai do Francisco, o pai do Thomás, são íntegros, compreensivos, respeitam decisões e estão abertos a discussões. Simplesmente deixam tudo fluir ao curso natural da vida. E é neste ponto que o filme se desloca da realidade e passa a ser uma história quase irreal. O constante clima de harmonia, ainda que passe por momentos de tensão e incerteza, os tornam seres idealizados. Por outro lado, são pessoas comuns, com um estilo de vida como o de qualquer um. É como se houvesse ali um recado dizendo que uma história como aquela, é possível.

Tal atmosfera etérea, por vezes, passa do ponto e alguns planos em câmera lenta associados à música instrumental (sobretudo no começo do filme) transmitem uma felicidade perfeita e piegas. E ainda tem momentos que os diálogos simplesmente não tem naturalidade, como no momento em que Francisco, longe do irmão, faz "novas amizades" em uma boate.

No entanto, existe um esforço em tornar os personagens humanos: eles sentem ciúmes e sentem-se inseguros, fazem sexo, são politicamente incorretos (Francisco chega a ler uma poesia de Hilda Hilst que diz "Bunda de mulher deve dar bons bifes no caso de desastre na neve"). Ainda assim, tem momentos que os personagens parecem saídos de um comercial de TV.

EMOÇÕES SINTÉTICAS E COISAS REAIS

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- Que horas você chega?
- Às nove, como combinado.
- Não pode chegar mais cedo?
- Vou tentar, ainda preciso cortar o cabelo, ir para casa, tomar banho, trocar de roupa.
- Tenta vir depressa...

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009. Uma data especial, era seu aniversário. Fui para casa o mais rápido possível, tomei banho, troquei de roupa, preparei a mochila (que me acompanha todos os dias da semana) e fui para casa dele. Cheguei vinte minutos mais cedo.

A comemoração seria simples, um jantar para nós dois preparado por ele (eu adoro que ele cozinhe para mim). Chegando lá, lhe dei o presente que havia comprado no dia anterior, um livro de decoração intitulado Minimal Style. Mas ele propôs uma mudança de planos.

- Hoje é meu aniversário, acho que mereço não ficar com a mãos cheirando alho e cebola.

Assenti e saímos para comer um lanche. No caminho, percebi que me esqueci da câmera fotográfica e eu não saio sem ela. Fizemos o retorno e voltamos. Aguardei no carro. Ele desceu com a minha mochila ao invés de pegar apenas a câmera.

Estávamos comendo. Alguns cliques depois, folheamos o livro que eu lhe dera. Observávamos os conceitos de design minimalista e como aquelas idéias poderiam ser utilizadas. Em conversas anteriores, ele havia me perguntado sobre o que eu achava da decoração de seu apartamento. O livro foi a resposta.

Então, ele disse que tinha uma surpresa. Surpresa? Era seu aniversário e diferente do que se espera, ele quem faria algo inesperado. Deu algumas pistas e brinquei de tentar descobrir o que poderia ser, e apesar de ter bastante habilidade em deduzir coisas, nem desconfiei o que era.

Terminamos de comer e saímos. Ele se distraiu, errou o caminho, corrigiu, chegamos ao destino e a surpresa foi revelada: ele havia reservado uma noite em um desses hotéis de luxo nos arredores da Av. Paulista.

Chegando naquele hotel de homens de negócios (como é típico daquela região), fomos atendidos com total eficiência desde a recepcionista, até o garçom que disse educadamente "com licença, senhores" ao entrar em nosso quarto para deixar o champanhe previamente reservado. E tínhamos champanhe, bolo, trufas e morangos. E apenas algumas poucas horas até que a manhã seguinte chegasse. Bebemos taças profusas de champanhe. E comemos morangos depois de degustar bolo e trufas. Por acidente, quebrei uma das taças. Recolhi os cacos e passamos a beber numa taça só. E éramos isso.

- O que você achou da surpresa?
- Gostei!

Tive receio que ele se decepcionasse com minha reação um tanto apática diante de sua expectativa em me surpreender. Não deixamos de aproveitar o que aquele playground podia nos oferecer, mas tivemos uma noite ótima porque havia grande sintonia entre nós.

Na manhã seguinte, pegamos o elevador para tomar café da manhã. No quarto andar, entrou um homem de terno, falando ao celular e a conversa era sobre a escolha do novo vice-presidente da empresa. E entre aqueles homens de gravata como que numa torre de babel, pareciam um pequeno exército de pessoas sérias demais falando sobre coisas sérias demais com seus sotaques variados. Terminamos e partimos.

Na sexta-feira à noite, saí da academia e fui para sua casa. Eu não pretendia vê-lo, pois já tínhamos planejado ficar o final de semana juntos mas, depois de malhar por mais de uma hora, eu estava com fome. Ele ele cozinha muito bem.

Coloquei para tocar Norah Jones e depois da última faixa, The Nearness of You, pedi que ele colocasse outro disco.

Eu ainda estava sentado à mesa, quando alguns acordes atravessaram a sala de estar e chegaram até a sala de jantar. Logo nos primeiros segundos, reconheci que ele tinha colocado o disco Jazz + Bossa do Delicatessen. E os vocais melífluos de Ana Krüger começaram a entoar os versos de Angel Eyes. Eu não sabia que ele tinha este CD. E é um dos meus discos preferidos.

Então, aquela reação que eu deveria ter tido no dia anterior com a surpresa do hotel, aconteceu quando percebi que ele tinha e gostava de um disco tão especial quanto aquele.

- Você ficou mais impressionado com o CD que com a noite de ontem?, disse ele em tom de brincadeira.

Eu não sabia explicar porque, mas foi exatamente isso que aconteceu. Então disse a ele que a noite anterior por si só tinha um significado. Mas a noite anterior, acrescida da audição daquele disco, tomava um sentido maior.

Sábado. Tínhamos combinado de sair para dançar com amigos. Cheguei na sua casa, e, de cara, vi que a sala estava diferente. Havia menos objetos. E o apartamento ficou mais bonito. Tive certeza que ele gostou do livro que eu lhe dera.

E aí, era hora do ritual de escolher uma calça bacana, a melhor camiseta, um tênis confortável e uma cueca de grife para exibir o cós depois de altas horas da madrugada.

- O que você acha dessa?, ele perguntou.
- Cueca rosa? Não, isso é muito gay! Parece uma calcinha!

Eu tinha comprado para mim uma camiseta regata, dessas de jogador de basquete. Estava com vontade de experimentar um visual diferente, uma alternativa às camisetinhas curtas e justas que todo mundo gosta de usar. Ele usou uma cueca preta.

Fizemos uma reunião em sua casa antes da balada, um esquenta. Recebemos amigos, tomamos caipirinha, matei a saudade de um amigo que mora em Nova York, conheci o melhor amigo dele.

A noite seguiu perfeita clube adentro e enquanto mares de homens sem camisa provavam emoções sintéticas, fazíamos parte daquilo tudo, dizendo um para o outro coisas reais.

Eu adoro te fazer feliz!, disse a ele. Eu sou só seu!, foi a vez dele. Confissões na pista de dança. E foi neste clima que a noite seguiu até o dia amanhecer.

Fomos para a área externa do clube, tomamos mais água, descansamos. Ele tirou uma ou duas fotos de mim.



- Me deixa ver!, disse.

Quando eu vi a foto que ele tirou de mim, e notei aquele visual despojado, usando uma camiseta regata larga e grande, como num passe de mágica, algumas coisas passaram a fazer sentido para mim.

Eu não precisava vestir uma camisetinha justa que ressalta meu corpo para me sentir bem e sexy. Nem ele precisava usar uma cueca AussieBum rosa, porque é gay e esta é uma marca da moda. Nós podemos muito bem, sermos autênticos e sacar o que nos faz bem de verdade, sem seguir a multidão, ainda que estejamos imersos nela.



E a noite de quinta foi especial não porque ele pode gastar centenas de reais para ficar algumas poucas horas em um hotel chique, mas porque ele tem o bom gosto de apreciar coisas sofisticadas da vida, como ouvir um CD de jazz e bossa que só pessoas refinadas são capazes de desfrutar.

No domingo, fomos dormir às 9h30 da manhã, mas acordei antes das 13h com vontade de colocar algumas idéias no papel. O computador estava ao lado de uma máquina de escrever antiga. Aquele contraste de certo modo nos representava. Achei tão poético! Vai ver eu ainda estava inebriado pelo efeito da... noite anterior que foi mágica.

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♫ Ouvindo: Delicatessen - Angel Eyes

O PRIMEIRO JAPA, A GENTE NUNCA ESQUECE

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Era o começo da tarde quando cheguei na academia. Estava vazia. Troquei de roupa. Guardei a mochila. Lavava minhas mãos. Observei um cara adentrando o vestiário e teria sido apenas uma cena comum, dessas que se repetem vinte e quatro horas por dia lá, o movimento de gente entrando e saindo. Não o vi muito bem, mas fiquei curioso. Terminei de lavar minhas mãos. Sequei-as. E de forma quase inconveniente, eu continuava a observá-lo; queria ver como era, quem era. E continuei a olhá-lo indiscretamente. E ele me olhou. Estávamos sós.

Quando o vi de fato, de frente, pensei em desistir do flerte: era um japonês. "Orientais não me atraem". E esta frase continuou recorrente em minha mente, mesmo depois que eu disse "sim" quando ele perguntou "vamos em casa?".

Chegando em sua casa, me esforcei para parecer natural. Acho que convenci. Nos aproximamos. E a frase continuava ressoando em minha mente "orientais não me atraem, orientais não me atraem". Nos beijamos. E a frase continuava presente em minha mente, mas em volume mais baixo. "Orientais não me atraem, orientais..." E a frase que ia ecoando cada vez mais baixo na minha cabeça, foi interrompida quando ele perguntou "está com fome, quer comer alguma coisa, antes?". Apesar da dúvida disse "não estou com muita fome, podemos comer alguma coisa, depois".

Voltamos a nos beijar e a evolução natural daquele gesto revelou alguém muito habilidoso. Enquanto sua boca percorria em declínio as curvas do meu abdômen, uma nova frase percorria meus pensamentos lânguidos "não pode ser um japonês, não pode ser um japonês". E eu abria os olhos e ele estava ali, de baixo para cima me olhando com seus olhos puxados. Eu fechava os olhos e passava por entre seus cabelos meus dedos. Negros. E continuava a passar meus dedos por entre seus cabelos. Lisos. E minhas mãos iam percorrendo demoradamente desde sua testa até sua nuca a medida que a frase "não pode ser um japonês" foi desaparecendo.

Então, já não havia mais espaço para frase alguma e nem pensamento algum.

Adormecemos levemente.

Acordamos.

"Vou fazer algo para comermos... gosta de shitake?", perguntou. "É um cogumelo? Gosto..." Ele começou a preparar um molho para o espaguete. Azeite, shitake, vinho branco, especiarias. Ele foi misturando os ingredientes enquanto conversávamos. Tive a impressão de que ficou pronto em dez minutos, mas deve ter sido bem mais tempo que isso. Enquanto comia, uma nova frase se misturava ao prazer da degustação "eu adoro homens que cozinham bem". Conversávamos. E eu degustava e pensava "adoro homens que cozinham bem, adoro homens que cozinham bem..." Era domingo.

Na sexta-feira seguinte, depois de um dia de quase dez horas de trabalho e depois da academia, estava voltando para casa. O celular toca. Era o japa. Fui até sua casa. Ele sugeriu preparar algo para comermos, antes. "Espaguete ou pene?".

Ele preparou um molho de camarão com tomates cortados em pedaços grandes. "Eu sempre uso vinho para cozinhar", disse. E comemos pene com camarão e vinho. Copiei do meu celular para seu laptop músicas e ritmos que ele não conhecia. Acho que gostou. Bebemos e ouvimos Marc Moulin. Música e vinho. Ficamos ligeiramente embriagados. Acid jazz e vinho. Passamos a noite juntos. Fomos para a academia de manhã, me despedi e fui para casa.

Sugestionados pelo tema da exposição "Cuide de você" de Sophie Calle que fomos no final daquela tarde , conversamos sobre relacionamentos. Discorremos sobre conceitos e teorias, essas coisas que achamos que acreditamos até surgir uma paixão. Comemos um lanche, fomos para sua casa e passamos mais algumas horas juntos.

"Embora você não tenha me convidado (ainda?), hoje não vou poder ficar contigo. Tem uns amigos do Rio em casa e preciso voltar" disse a ele. "Posso te levar em casa?" Agradeci e disse que não era preciso. Era sábado.

Na volta para casa, percebi que não se tratava de um japa diferente. Se tratava de uma pessoa diferente. É alguém que tem prazer em compartilhar seu espaço de forma generosa. Que sabe tratar o tempo sem pressa. Que observa e compreende. Que entende piadas sutis. Que faz macarrão com shitake em minutos. Que é bom de cama. É alguém que eu quero ter por perto.

Fiquei pensando até que ponto nossas preferências são de fato preferências, ou simplesmente preconceitos velados. Me permiti conhecer alguém que parecia diferente do que me atraía fisicamente. E fui surpreendido por uma pessoa excitante e especial. Eu pude enxergar além de seus olhos puxados. Diante de tantas qualidades, o fato dele ser nisei, sansei (ou seria yonsei?) é irrelevante.

O primeiro japa, a gente nunca esquece.

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♫ Ouvindo: Marc Moulin - Welcome to the club

A FÁBULA DO ABACAXI E OUTRAS FRUTAS

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Como toda pessoa de hábitos alimentares saudáveis, adoro frutas. Geralmente as compro em supermercados pela praticidade. Uns mercados têm frutas frescas e de qualidade e em outros não são tão boas. Depende do local.

Mas o melhor lugar para comprar frutas, é a feira. Gosto da variedade e desordem de gente da feira livre. É aquela bagunça, todo mundo metendo a mão em tudo quanto é coisa, é mão na fruta, é fruta na mão e tem gente que mete a mão para apalpar e saber se ainda está verde, se está no ponto ou se está podre. E é gente passando, olhando, pegando, esfregando, cheirando, gritando tentando vender seu produto. Gosto sim, mas não é o tipo de coisa que tenho vontade de ir toda semana. De vez em quando, uma vez por mês ou a cada dois meses, é suficiente. Mais que isso é demais, pode virar hábito, vício.

Um momento peculiar é a hora da xepa. Funciona assim:

No final da feira, a gente vai pegando o que está disponível, sem escolher muito, só observando aquilo que está em condições razoáveis de consumo e o preço mais barato. Já saí da feira de mãos abanando e um tanto irritado por ter escolhido demais e não ter pegado nada. Acontece também de chegarmos cedo na feira, mas acabamos escolhendo tanto que a hora da xepa vai se aproximando sem percebermos.

Outro dia cheguei na feira e logo vi uma banca com muitas frutas e tinha uma porção de abacaxis expostos. Teve um abacaxizinho verde que me olhou. Desviei meu olhar sem ter muita certeza se ele havia me encarado de fato. Passados uns instantes, olhei de novo, só para ter certeza. E ele continuava a me olhar. Argh... não devia ter feito aquilo, de querer confirmar se ainda me observava. Aí que o abacaxi ficou me olhando mesmo. Mas eu tinha acabado de chegar na feira, não ia levar um abacaxi verde daquele. Se eu o levasse para casa, certamente não ia querer comer, me conheço. Na hora pensei: "Frutinha, desculpe, não vou te comer não. Você está muito verde ainda. Quando você ficar mais maduro, eu te levo para casa e como com todo gosto."

Muita gente, acho que a maioria, gosta do abacaxi assim, meio verde, um pouco antes de ficar maduro. Aí leva para casa, enrola no jornal, guarda num lugar fechado e espera ficar maduro. Eu não. Gosto de pegar já maduro, pronto para ser degustado.

O fato é que continuei na busca por um abacaxi maduro que de fato me despertasse a atenção, que eu desejasse. Mas não encontrei. Então, já no final da feira, resolvi voltar naquele abacaxi meio verde e, quem sabe, levá-lo para casa. Não era exatamente o que eu queria mas também não era de todo ruim.

Cheguei perto dele, fiz cara de quem ia pegá-lo. Ele não falou nada, mas sua cara de desprezo me dizia: me dispensou quando as ofertas lhe pareciam boas, como não conseguiu nada, você vem me pegar? Não! Vai-te embora!

Não é estranho levar um fora de um abacaxi? Pois é, eu levei! Mas na feira é assim mesmo: quem é que nunca se sentiu como um abacaxi verde na hora da xepa?

Na verdade abacaxi nem é minha fruta preferida. Acho gostoso, como, meto as duas mãos para pegar de jeito e me lambuzo, faço dele suco... mas gosto mesmo é de kiwi. Ah, um kiwi! Uma vez, achei um kiwi tão vistoso e saboroso num domingo de feira que nem quis saber de mais nada, ele me bastou! E como bastou! Me bastou pela efemeridade de um domingo. E, às vezes, devo confessar, recordo com saudades de como foi bom aquele kiwi.

Tenho minhas preferências, é verdade, mas não sou radical. Gosto de fruta e como quase todas. Claro, tem que estar em boas condições, isso é importante. Mas já me satisfiz com abacaxi, kiwi, pera, maçã... só não me venha com jaca e figo: não gosto!

A propósito, quando é a próxima feira?

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♫ Ouvindo: Zeep - Baby

UM MÊS DE NAMORO E... JUNTAR OS TRAPOS

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Enviei ontem de manhã um e-mail para um amigo perguntando como foi o fim de semana. Ele respondeu: casei. Conheceu um cara pela internet e depois de um mês decidiram morar juntos.

Ele sempre falava em alto e bom som, que não queria namorar. Falava em alto e bom tom, que a idéia de morar junto era algo que não povoava seus planos. Dizia que estava muito bem sozinho.

Ele bradava. Eu ouvia. Bradava e eu desconfiava. Ele bradava e eu via em seus olhos que mentia. Ele bradava e eu tinha certeza que, apesar de seu discurso, tudo que ele queria era ser salvo pelo príncipe encantado. Ele bradava. O príncipe chegou. Não foi montado em um cavalo branco, mas com caixas de coisas a fim de dividir o espaço de seu apartamento.

Será que o casamento está tão profundamente incutido em nossa formação e cultura que mesmo quando achamos que não queremos, no fundo, o desejo é estar envolto pelos laços do matrimônio?

Cada um tem seu ritmo. Eu esperei dois anos antes de tomar esta decisão. E depois disso, foram mais dois anos juntos. Conheço um casal, que depois de algumas idas e vindas, demorou dez anos para morar junto e já completou o primeiro ano que estão sob o mesmo teto.

Admito antecipadamente minha rabugice, mas tem uma pergunta que não pude deixar de pensar: depois de apenas um mês de namoro, não foram um tanto precipitados? Dá tempo de decidir com maturidade morar com alguém que se conhece há tão pouco tempo?

A idéia de juntar as escovas, não soa com harmonia aos meus ouvidos. Não penso nisso agora. Mas admito a possibilidade que uma das respostas para um bom relacionamento esteja nos preceitos básicos e tradicionais. Será?

O flerte, o frio na barriga. Conhecer. O primeiro encontro. Apaixonar-se, namorar. Amar, juntar os trapos. Aquela coisa de acordar e tomar café da manhã, escolher os objetos e móveis do apartamento novo, planejar inúmeras viagens, mesmo que não aconteçam todas. É um ciclo.

Mas o frescor dessas experiências, parece começar já com prazo de validade. O viço se perde em questão de tempo. E dá aquela vontade de poder sentir tudo de novo. Mas é um tipo de coisa que só sentimos uma vez com cada pessoa, mesmo que os otimistas e leitores de livros de auto-ajuda proclamem que é possível reacender a velha chama. Manter, sim, é possível. Reacender, não.

Fiquei surpreso com a notícia, mas não deixo de admirar sua coragem em arriscar-se. Que palpite dariam os apostadores: vale a pena jogar todas as fichas numa paixão avassaladora? Que outras razões levam uma, ou melhor, duas pessoas a tomar uma decisão tão importante de modo repentino?

"A sorte está lançada."

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♫ Ouvindo: Zuco 103 - Humana

ENSAIO FOTOGRÁFICO: 7 PASSOS PARA A ESCURIDÃO DE BILLY

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Fotos por Renato
Modelo: Billy

Não recomendado para menores de 18 anos.

>> Acesse o álbum no Flickr

HOMENS NÃO PRECISAM SER BONITOS

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Se você gosta de homem, homem de verdade, já deve ter sacado que homem não precisa ser bonito. Se for, melhor, a vaidade agradece. Mas beleza não é uma condição sine qua non para que uma pessoa seja interessante. E nesse ponto, temos vantagem sobre as mulheres: exige-se muito mais da aparência delas e não é à toa que existe um sem-número de artifícios para disfarçar aquilo que a natureza não fez questão de caprichar.

Não quero dizer, no entanto, que os varões podem entregar-se à cerveja e torresmo cultivando panças hediondas que transbordam uma imagem de desleixo e falta de cuidado com a saúde. Mas quanto à barriga tanquinho e rosto de Gianecchini, se tiver, legal; senão, esqueça; isso é detalhe. É mais ou menos como acessório de carro: a gente gosta e às vezes até faz um esforço para ter, mas não é fundamental. Na caça, acredito fortemente que cada um deve jogar com as armas que tem, porém devemos refletir sobre a relevância das coisas que realmente importam.

Se o cara tem bom papo e senso de humor, presta atenção vorazmente na outra pessoa, tem comportamento companheiro, se importa, participa, é compreensivo, beija bem, é bom de cama... a medida que ele se sobressai nestes quesitos, a aparência de dândi vai ficando menos relevante.

Não que a imagem não seja importante. Mas imagem, não é sinônimo de beleza. A imagem deve ser atraente. Do ponto de vista sexual, por exemplo, é preferível alguém mesmo sem ser bonito, mas que temos vontade de arrastar para o primeiro canto a alguém lindo, de corpo esculpido, six pack, porém com comportamento esnobe. Gente esnobe é brochante, sempre.

Não sou contra malhados: é bonito ver um corpo torneado e quem tem sabe o trabalho que dá ter um. Eu mesmo malho cinco vezes por semana para manter uma forma física aceitável e tenho certeza que isso me possibilita interações que não seriam conseguidas se eu estivesse fora de forma. Ninguém gosta de gente relaxada.

Homens devem ser interessantes e atraentes. E as definições para interessante e atraente são bastante subjetivas. Uns se ligam mais no intelecto e afinidades culturais. Outros apreciam mais as características sentimentais. Há aqueles fascinados por algum tipo específico: japonês, loiro, baixinho, negro, fortão, peludo, magrelo, machão e tudo mais que a fauna humana oferece.

E é neste momento que temos a chance de colocar em prática nossa autenticidade ignorando ditaduras e modinhas. Por que um cara gordinho usa roupa justa e curta, deixando à mostra pneuzinhos constrangedores? O que faz alguém usar uma calça-cenoura mesmo quando isso resulta num visual desastroso? Por que tem homem cinqüentenário que insiste em pintar os cabelos de preto azulado?

Temos que ressaltar nossas individualidades, prestar atenção em nossas peculiaridades. Quando conquistamos pela autenticidade, essa conquista tende a ser mais sólida e dotada de certeza. A propósito, gente autêntica, é excitante. Excitante, mesmo sem a supervalorizada beleza cosmética.

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♫ Ouvindo: Seu Jorge - Mania de Peitão

SOVACO

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Pouco lhe importava bíceps, tríceps, quadríceps, peitoral ou centímetros seja lá do que fosse. Ele gostava mesmo é de um sovaco. Não falo de axilas assépticas, com pêlos aparados e de apreciação platônica. Falo do sovaco, ou melhor, "suvaco" do pós-treino e suado.

Era só um colega de academia com quem eu tinha papos despretensiosos. Com o passar dos dias, fui percebendo os olhares mais freqüentes, a mudança de rumo das conversas. Fui permitindo a evolução do assunto. Chegamos a comentar sobre tipos físicos até que ele perguntou se tinha alguma parte do corpo que me atraía mais. Não, nada específico - disse sem pensar muito na resposta. E, numa cena rodriguiana, ele que ainda segurava uma anilha com as duas mãos, passou por trás de mim e falou baixo, quase sussurrando, perto do meu ouvido: gosto de sovaco. E saiu. Fiquei levemente aturdido, coisa de alguns segundos.

Embora não fosse a primeira pessoa que havia explicitado este tipo de desejo, fiquei curioso para saber o que, afinal, um tarado por sovaco, faria com um. E acredite, com um pouco de resistência às cócegas e alguma desinibição, é possível se divertir com isso.

O fato é que as pessoas tem tido menos pudor na busca do prazer, adotando práticas menos comuns e o suor, por exemplo, é um símbolo incontestável de masculinidade que permeia o imaginário de muita gente. Claro que é necessário observar o outro para saber se haverá receptividade para evitar situações embaraçosas.

E tem gosto para tudo. Já me pediram para eu derramar a saliva. Já me pediram para eu dar uma... mijada! Me considero um tanto convencional, sou a favor do "básico bem feito". Mas se me pede, dependendo, eu faço: "servimos bem para servir sempre".

DE VOLTA AO COMEÇO

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Cansei. Foi assim, com uma única palavra, que um amigo que eu não via há meses, justificou porque estava namorando. Apesar da liberdade de comportamento permitida pelos tempos atuais, a facilidade de viver em grandes cidades num ambiente em que parte das questões de aceitação social pouco atrapalham o dia a dia, tem gente que está desistindo da opção de pura fruição da vida sem compromisso e voltando a desejar os antigos valores como namorar, morar junto e tentar uma monogamia feliz.

No livro Design para quem não é designer, de Robin Williams, tem uma passagem que diz: "A lei básica de se quebrar regras é saber, em primeiro lugar, quais são as regras. Se você tiver justificativas para quebrá-las - e se o resultado for bom -, vá em frente!"

Este conceito pode fazer sentido se, além da questão da estética gráfica proposta no livro, traçarmos um paralelo com nosso estilo de vida. Primeiro, conhecemos e aplicamos as regras, os padrões socialmente aceitos. Depois, há a possibilidade de quebrar estes padrões para criar nossas próprias regras, se realmente acreditamos que vale a pena. Mas podemos nos deparar com um cansaço que o excesso de liberdade às vezes causa, e só encontramos tranqüilidade nos preceitos básicos, então, de volta ao começo, retornamos às práticas tradicionais de relacionamentos. Já senti este cansaço que me refiro. Mas não costumo estacionar numa fase, nem tenho um comportamento que é sempre igual: estar numa fase ou outra, depende de vários fatores.

O fato é que não suportamos a idéia de ter tolhida uma liberdade que sequer experimentamos. É bom sentir-se livre para fazer o quer. E nem sempre basta saber-se livre: é preciso experimentar essa liberdade. Então, para nos comprometer com alguém, precisamos antes explorar as possibilidades de não estar comprometido. Acredito que uma relação é mais sólida quando as pessoas já não tem uma vontade recorrente de saber como seria se estivesse solteira. Experiência faz toda diferença.

Meu amigo estava empolgado com o namoro, falava com um constante sorriso nos lábios. Conhecendo seu histórico, tive que lhe perguntar se estava conseguindo segurar a onda de um namoro formal, à moda antiga. Ele disse que... sim. Bem, do jeito dele, mas estava. O jeito dele implica em eventuais flertes e papos que o "inspira" para suas "sessões individuais" e só. Segundo disse, não tinha contato físico com outros caras. Parece que tem funcionado há seis meses, tempo que está namorando. Mas será que ele vai conseguir manter a famigerada fidelidade? E quando a inevitável rotina instalar-se vagarosamente, qual será seu comportamento?

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♫ Ouvindo: Norman Alexander - Mind Drift

FUTUROLOGIA DOS RELACIONAMENTOS

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No jogo da futurologia dos relacionamentos, um naipe raramente sorteado é o da monogamia. Tenho observado que as pessoas estão cada vez mais assumindo que namorar pode ser bom, mas a perspectiva de fazer sexo com um único parceiro nos próximos anos, é desanimadora. Compreensível, visto que monogamia, definitivamente, não é uma inclinação do homem contemporâneo.

E por falar em naipes, tem alguns que são freqüentemente sorteados. Outro dia conheci um cara do Rio Grande do Sul de 37 anos que namora um rapaz de 21. É o primeiro namoro do mais jovem e ele debutou de forma pouco usual: eles têm um relacionamento aberto.

Neste jogo de cartas, tem outro naipe interessante. Não sei bem como defini-lo, mas digamos que é uma espécie de... namoro sem exclusividade. Comigo tem funcionado assim: nos vemos com certa regularidade, vamos ao cinema, teatro, restaurante, assistimos DVDs em casa e até trocamos presentes no último 12 de junho. Enfim, todas as coisas que um casal costuma fazer. Mas não temos obrigação de nos ver todos os finais de semana.

Os mais tradicionais devem estar neste momento com o pescoço protraído, rugas na testa e pensando que estas novas formas de namoro são, na verdade, uma mixórdia. Mas não são. Assim como em qualquer relação, há regras.

No naipe do relacionamento aberto, como no caso dos caras de Porto Alegre, algumas das regras são: quando não estão juntos, cada um pode dar seus pulos de cerca sem culpa, basta que seja de forma discreta para que o outro não fique sabendo. Quando estão juntos, uma terceira pessoa é permitida, mas somente para uma... foda sem compromisso. Dessa forma, não ficam na fissura de dar uma escapada, simplesmente deixam as coisas acontecerem.

No naipe da não exclusividade, cobranças não existem. Basta que, em comum acordo, as pessoas estejam a fim de se ver e um telefonema ou sms são suficientes para marcar um encontro. Se ambos estiverem a fim, ótimo, senão fica para outro dia. E sem cobranças do tipo "por que você não quer me ver hoje?".

"Estou em férias mas meu namorado não pôde vir" disse o gaúcho enquanto tramava sua pulada de cerca lícita.

Será que aquele modelo de relação em que as pessoas juravam amor eterno e ficavam juntas de forma monogâmica até que a morte as separasse está caindo em desuso? E quanto às novas práticas, será que estamos nos tornando superficiais ou realistas?

Não defendo padrões. Acredito que cada um deve buscar aquilo que faz sentir-se bem, basta que haja honestidade e clareza na intenção. Cada um cria seu modelo, suas regras.

"Não é para assustar, mas tenho um presente para você", eu disse para ele na última sexta-feira. Ele também tinha comprado um presente para mim. Ficamos na sexta, e no sábado, depois do café da manhã, ele me deixou na academia. Mas não me pergunte o que ele fez no sábado a noite, não nos vimos. Não há exclusividade.

Quais serão os próximos naipes do jogo da futurologia das relações? Façam suas apostas.

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Ouvindo: Tricky - Aftermath